Em Boston, brasileira compartilha os benefícios e desafios de morar fora do país

Fotógrafa Mariana Velludo fala sobre o aprendizado de recomeçar a vida nos Estados Unidos

Morar fora do país era um sonho antigo para Mariana. Mais do que uma vontade de mudar de endereço, o desejo de atravessar fronteiras vinha acompanhado da curiosidade de conhecer o mundo. Quando surgiu a oportunidade de se mudar para os Estados Unidos com o marido, o casal escolheu Boston, em Massachusetts, pela combinação entre urbanidade, diversidade e qualidade de vida.

“Eu sempre tive o sonho de morar fora do país. Nós dois, inclusive, eu e [meu marido], sempre quisemos morar fora do país, de viajar o mundo e conhecer várias culturas. Os Estados Unidos foi uma forma de viabilizar esse sonho. A gente escolheu, particularmente, Boston, Massachusetts, por conta da multiculturalidade, de ser uma cidade grande, universitária, então colocaria a gente num meio diferente do que seria em outras cidades. E realmente tem um estilo de vida que gostamos, adoramos a arquitetura do ambiente. Fizemos uma análise geral em coisas que a gente não teria um choque tão grande de cultura, mas ainda assim estaria experienciando outro país”, explica.

A adaptação, no entanto, veio acompanhada de uma série de comparações inevitáveis. Mariana lembra que, nos primeiros meses, qualquer detalhe parecia motivo para medir as diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos. “Quando a gente chega aqui, é uma coisa que acho que todo mundo que muda de país faz, é ficar comparando os mínimos detalhes. Então, pegou o Uber num lugar diferente, o preço é diferente. Quando você chega, você ainda converte muito, então você pensa, nossa, mas esse produto aqui é tantos reais. Nossa, mas no Brasil esse aqui é muito caro, lá é mais barato.”

Apesar da saudade da cultura e dos hábitos brasileiros, as boas impressões vieram rápido. Ela conta que se sente mais segura, e que algumas diferenças cotidianas ainda chamam atenção, como a tranquilidade de poder mexer no celular na rua sem medo.

“Sentimos mais seguros, de certa forma. Aqui, não temos tanto medo de roubo (…) quando andávamos, pelo menos na nossa cidade, um parava para mexer no celular, o outro ficava olhando, e eu acho que até o primeiro mês a gente fez isso. Depois percebemos que não tinha essa necessidade”, afirma. 

Com o tempo, os desafios foram mudando. O inverno rigoroso, que parecia assustador, se mostrou mais suportável do que ela esperava. O verdadeiro obstáculo, segundo Mariana, foi outro: encontrar o senso de pertencimento.

“É claro que não se compara à cidade que eu morava, que fazia quase 40 graus, e aqui, do nada, faz menos 20. Mas não foi um desafio tão grande quanto eu achei que fosse. Eu acho que o mais difícil aqui é o senso de pertencimento, porque, apesar de ter muito brasileiro na região, ainda é uma comunidade que todos se sentem fora da sua casa. Não tem como você acolher, se mesmo você não se sente de lá”, aponta.

A fotógrafa também comenta sobre o impacto das tensões políticas no cotidiano de imigrantes, especialmente em tempos de incertezas quanto às políticas migratórias.

“O momento político que a gente se encontra agora é um grande desafio, por conta de toda essa restrição em relação aos imigrantes (…) é você ter que pisar fora todo dia, sabendo que, mesmo com o status legal, mesmo com todos os seus processos aprovados, você ainda sim corre o risco de não voltar para a sua casa.”

Além do aspecto emocional, há também a questão prática: a burocracia. Mariana conta que se surpreendeu com a quantidade de processos em papel, mesmo em um país reconhecido pela tecnologia.

“A aplicação imigratória é por carta, você tem que mandar 37 páginas impressas por correio para a imigração (…) quando você paga uma aplicação, você não faz um PIX, não faz um ZELLE, não faz uma transferência bancária e manda o comprovante, não. Você paga um cheque no correio, o correio te dá um cheque de comprovação de dinheiro, você assina e envia junto com a sua aplicação impressa. É muito burocrático aqui,  algo que a gente achou que seria muito mais tecnológico.”

Por outro lado, há aspectos bastante positivos. O poder de compra é, para ela, uma das maiores vantagens de viver nos Estados Unidos, especialmente para quem trabalha com tecnologia e produção audiovisual.

“Eu acho que o maior lado positivo, bom, quase unânime para todo mundo que você perguntar que vem para cá, é o poder de compra. Na minha profissão, que é fotografia, e a do meu marido, que é audiovisual, é muito mais acessível comprar os equipamentos. Câmeras que no Brasil, pensamos, nossa, vou economizar muito tempo para comprar. Aqui a gente comprou muito rápido, e as coisas mudam muito rápido, então você tem acesso a novas tecnologias o tempo todo.”

Com formação em fotografia, Mariana observa como as oportunidades de trabalho e de consumo influenciam diretamente o estilo de vida. Além do conforto material, ela valoriza o contato com diferentes culturas e o aprendizado de viver em um ambiente global.

“Eu acho que a experiência de se integrar na comunidade local e fazer amigos aqui abre muito a sua mente. (…) Você faz amizades interculturais (…) você perceber que você pode conviver com essas pessoas, gostar do que é diferente nelas, entender as várias oportunidades, as várias rotinas e vidas que essas pessoas levam, é algo que abre a sua cabeça, e você nunca consegue desviver isso em você.”

A mudança para os Estados Unidos também marcou o início de uma nova fase pessoal: a primeira vez morando sozinha, longe da família e do conforto da casa dos pais. “A minha jornada talvez seja um pouco diferente de quem já tinha uma vida no Brasil (…) eu vim para cá direto, e eu morava com meus pais quando eu estava no Brasil. Então a minha primeira experiência morando sozinha, realmente por conta, foi aqui, e é realmente assim, aprender a viver.”

Essa vivência, diz ela, trouxe amadurecimento, autonomia e um novo olhar sobre o mundo.“Foi aqui que eu aprendi a pagar as minhas contas, a fazer a minha rotina, a vencer as barreiras que a gente tem de intercalar uma rotina, e aprender costumes novos.”

Ao relembrar o processo até chegar aos Estados Unidos, Mariana reconhece o quanto a decisão de partir transformou sua visão de mundo. “Do dia em que a gente realmente decidiu se mudar pra cá até o dia que a gente pousou aqui, foi o processo acho que de um ano e meio aí (…) foi uma mudança grande, de sair do nosso país, de sair do nosso conforto pra vir pra cá, certas situações parecem que é igual aprender a falar de novo.”

Hoje, ela olha para trás com a sensação de que cada desafio valeu a pena. “Eu acho que o mais gratificante dessa experiência toda é que é uma experiência que nunca vai sair de mim. Você aprende coisas, você conhece pessoas e eu acho que conhecimento é uma coisa que ninguém te tira (…) eu espero conquistar muito daqui pra frente. Talvez não seja o meu único país que eu vá viajar, mas foi um bom começo”, finaliza.

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