Metade das crianças brasileiras usam telas diariamente, segundo dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (IELS-2025), divulgado neste ano. O celular já é o principal dispositivo de acesso à internet entre jovens de 9 a 17 anos no país, enquanto especialistas vêm alertando para os impactos do excesso de tecnologia na infância.
Em meio a esse cenário de hiperconectividade, a pedagoga Izadora Delbon decidiu transformar o quintal da própria casa, em Sertãozinho, no interior de São Paulo, em um espaço voltado ao brincar livre. Foi assim que nasceu o Sentindo a Infância.
O quintal como sala de aula
Depois de anos trabalhando com educação infantil em escolas e creches, Izadora começou a sentir que a infância estava cada vez mais distante do brincar. “Quando você sai da faculdade e entra no mundo real, na escola, as coisas são um pouquinho diferentes”, afirma.
Formada em pedagogia em 2022, ela conta que entrou no curso sem imaginar a dimensão do trabalho pedagógico. “Eu entrei pensando: ‘ah, pedagogia, vou cortar EVA e brincar com criança’. Aquele pensamento bem ignorante sobre a profissão. E aí, quando eu comecei a estudar, eu me apaixonei.”
Na faculdade, encontrou teorias e abordagens que mudaram sua forma de enxergar a infância. “A criança é a protagonista do aprendizado. E nós somos mediadores.” Para ela, a “primeiríssima infância é o brincar livre”.
Mas a realidade das escolas públicas trouxe frustração. “Muitas vezes a gente não consegue aplicar tudo aquilo que aprendeu porque falta recurso e material.” Segundo Izadora, existe também um desgaste estrutural dentro das instituições. “Às vezes as pessoas preferem ficar naquela mesma repetição.”
Ao mesmo tempo em que trabalhava em creches, começou a se aproximar de projetos de educação ambiental. Em uma fazenda em São Joaquim da Barra, encontrou uma proposta que unia natureza, experiências sensoriais e infância. “Eles trazem muito essa coisa do encantamento. De criar esse amor, essa reconexão com a natureza.”
A decisão de criar o próprio espaço veio depois de abrir mão da estabilidade da rede pública. “Eu precisava ir em busca de coisas que não só iam me dar retorno financeiro, mas que iam me preencher por dentro.”
Diante das incertezas, uma amiga sugeriu que ela organizasse uma colônia de férias no próprio quintal. A ideia acabou se transformando no início do projeto. O nome resume a proposta do espaço. “Sentindo a infância: os sentidos da infância. Esse tempo sem pressa.” No quintal, árvores plantadas pela avó convivem com oficinas e crianças descalças.
A perda do brincar livre
Para Izadora, a infância contemporânea atravessa uma crise de imaginação e excesso de estímulos prontos. “As crianças não sabem brincar”, observa. “Elas querem ficar no brinquedo, na coisa que já está pronta.” Ao lembrar da própria infância, ela compara: “Quando eu era criança, a gente inventava brincadeiras.”
O projeto também funciona como resposta ao afastamento das crianças dos espaços abertos e da natureza. “Trazer um pouco da natureza. Pôr o pé no chão. Pôr o pé na grama. Pôr a mão na terra.” Segundo ela, o contato com a natureza é essencial para o desenvolvimento infantil.
As atividades do quintal incluem oficinas manuais, brincadeiras tradicionais, colônias de férias e vivências em família. Apesar do aspecto lúdico, Izadora ressalta que o projeto não tem apenas caráter recreativo. “Todas as atividades têm intencionalidade pedagógica. Nada é feito sem objetivo.”
Ao falar sobre o cenário atual da educação infantil, ela também critica a forma como infância e educação passaram a ser consumidas. “Eu vejo muita coisa sem propósito.” Para ela, transformar a infância em produto é “muito grave”.
Entre a pedagogia e o empreendedorismo
Mesmo tentando construir um trabalho alinhado aos próprios valores, os desafios financeiros continuam presentes. “Eu me considero uma artesã da educação”, explica. “A gente não cobra só pelo material. A gente cobra pelo trabalho, pelo estudo, pelo tempo.” Ela também questiona a forma como certos serviços são valorizados socialmente. “Às vezes a gente paga R$100 numa pizza, mas não quer pagar por um trabalho que tem um impacto muito maior.”
Além de pedagoga e empreendedora, Izadora também é mãe solo, e afirma que isso atravessa diretamente o projeto. “Ser mulher e ser mãe: esse combo torna as coisas muito mais difíceis.” Em vários momentos, ela relata insegurança sobre ocupar esse espaço profissional. “Às vezes eu nem me sinto uma empreendedora”, confessa. “Esses espaços nunca foram ocupados por nós.”
Apesar das dificuldades, ela diz que o maior retorno aparece nas próprias crianças. “As crianças se sentem seguras e livres.” Segundo ela, o espaço permite que elas “brinquem sem serem punidas”.
Durante uma colônia de férias, uma das mães comentou que o filho “dormiu a noite inteira” depois de passar o dia no quintal. Em outro momento, uma criança neurodivergente passou a criar vínculo com as plantas do espaço. “Ela pega a lavanda e fala: ‘Tá sentindo esse cheirinho?’”
Enquanto fala sobre o futuro do projeto, Izadora aponta para os cômodos da casa. A ideia é que, aos poucos, tudo vire extensão do quintal. “Eu pretendo que essa casa inteira se transforme nesse espaço de brincar.”







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